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Precisamos de bons samaritanos

A ética cristã é marcada pela ação confrontadora do bom samaritano. Não digo essa que costumamos ver na TV, não digo essa ética dos “apóstolos” endinheirados andando de jatinho sobre nossas cabeças. Escrevo aqui sobre a refinada ética incrustada em todo o Evangelho; quanto mais se cava, mais se encontra.

A ação do samaritano misericordioso é apontada pelo Cristo como sinal que desvela a essência pura de uma ética elevadíssima.

A ética cristã não é apenas uma regulação de nossa vida visando o bem comum; é um chamado à transcendência, um convite ao enobrecimento por meio de uma nobreza que não é a nossa própria. Os padrões são tão elevados que só é possível vivê-la com a ajuda direta do próprio Deus.

Precisamos de bons samaritanos.

A ética do bom samaritano é a de alguém que superou os limites da solidariedade étnica, capaz de ter compaixão de outros povos. Era um samaritano ajudando um judeu, sendo que o judeu não considerava o samaritano digno.

A sua ética não cedeu ao recalque psicológico ou ao revanchismo. Quando um homem semimorto está à beira do seu caminho, suas chagas revelam que somos semelhantes; esta empatia elevada está sobre as ofensas, sobrepuja todas as pontes quebradas entre eles e “anda sobre as águas”. Esta é uma ética do milagre: o milagre do reencontro entre os que já se odiaram, dos que têm motivos para revidar e, mesmo assim, não o fazem. Este é o milagre de que precisamos em nosso país, em nossas famílias, em nossas instituições públicas e em todas as esferas constitutivas da sociedade.

As fraturas sociais que nossa política atual evidencia carecem de uma reestruturação ética profunda. Boas ideias e novos rostos não serão suficientes. O que precisamos é de homens transcendidos fazendo uma política ética. Precisamos de bons samaritanos.

Nossa política amargamente polarizada revela nossa capacidade para o desprezo. Rotular o outro como menor e perigoso – essa repulsa ao próximo – pode ser uma via segura para opressões mais duras, horríveis e para uma áspera servidão. Por isso, a ética do bom samaritano é sempre urgente, porque a história do homem também é uma história da força exercida sem justiça. A história dos homens é a história do irmão que mata o outro por inveja e a de tantos “Amarildos” (quem não se lembra do caso Amarildo no RJ?).

Precisamos de bons samaritanos.

Na América Latina, uma ética do bom samaritano cairia bem, pois temos uma multidão incontável de despojados à beira da estrada; temos muitos semimortos pelo caminho. Muitos já passaram e já olharam, mas não se desafiaram à solidariedade. Nossos colonizadores fizeram conosco uma guerra injusta, cruel, sanguinolenta e tirana; temos sofrido há muito tempo inúmeros golpes e nossa tentação constante é ceder ao desejo de vingança. Precisamos de uma peregrinação pela via do perdão; precisamos ver nos olhos do Cristo que nossa vitória está no autossacrifício, e não na guerra contra o outro. Precisamos de bons samaritanos.

Desconfio seriamente de que é tempo de discutir a ética, e esta deveria ser o fundamento mais constitutivo de nossa vida pública. Precisamos discutir os fundamentos da moral, da justiça, do que é bom, belo e verdadeiro. O abandono dos absolutos nos entregou ao cinismo, e este nos lança na falsa obrigação de imputar em nós mesmos o sentido de nossa vida e da história. O abandono de que nosso fim não é outro senão a morte nos joga em um presentismo histérico e eticamente estéril.

O caminho de volta não é fácil, nem para os de espírito humilde; e, com certeza, será avidamente amargo para os ensoberbecidos pelas ilusões do secularismo humanista.

É tempo de uma ampla discussão essencial. O problema de nossa política é apenas um sintoma, não é nosso principal problema. Nosso problema é ético e precisamos de Bons Samaritanos.

+ Bispo Eric Rodrigues
Igreja Anglicana Ancora, Vitória- ES

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