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Deus abençoe e guarde a Arcebispa de Cantuária Sarah Elisabeth Mullally

Mesmo à distância (como bispo de uma diocese fora da Comunhão Anglicana) não dá para ignorar e o silêncio me soaria pedante. Oro, celebro e desejo que seu ministério seja frutífero.

Em um tempo em que alguns fazem do barulho das pontes caindo uma canção para dormir e das construções das cercas que por vezes nos separam “um ministério”, precisamos reafirmar o óbvio. Orar é um dever que atravessa fronteiras institucionais, e desejar o bem não deveria precisar de prescrição canônica. Por isso, elevo minha voz em favor de Sarah Mullally e de todo o povo que caminha sob sua liderança e herança de Cantuária. Porque, para além das cercas visíveis (que alguns amam mais que a cruz), a cristandade permanece uma só carne ferida e redimida.

Recordo aqui uma certa insistência de Papa Francisco: os perseguidores da fé cristã não perguntam a qual Igreja pertencem; veem apenas que são cristãos. Quando o sangue cristão é derramado no Oriente Médio, não são mortos como “católicos”, “ortodoxos” ou “protestantes”, mas simplesmente como cristãos; é sangue do povo da cruz. Este é o ecumenismo de sangue.

Há, portanto, uma comunhão mais profunda do que qualquer estatuto: uma comunhão cravada no madeiro do Senhor, onde todos fomos reunidos antes mesmo de aprendermos a nos dividir. Saúdo com alegria a Arcebispa Sarah como parte desta comunhão.

E, ainda que marcada por tensões, fraturas e incompreensões, permanece de pé uma realidade incontornável: o arcebispado de Cantuária não é apenas um título honorífico, mas um eixo simbólico e histórico. Desde Santo Agostinho de Cantuária, enviado por Papa Gregório I no longínquo século VI, até os dias de hoje, ali se teceu uma linha de continuidade que ajudou a moldar não apenas a identidade inglesa, mas uma vasta família de igrejas espalhadas pelo mundo.

A Catedral de Cantuária não é um museu feito de pedra e vitral: é memória viva e atuante. Tem gente que desdenha e renega, mas tem coleções de fotos guardadas e se arrepia toda vez que visita ou gostaria de ter tais fotos e dinheiro para visitar, é o “Deus me livre quem me dera”. Por séculos, Cantuária foi o grande ventre e o altar de onde brotou o anglicanismo. Mesmo após as rupturas ao longo dos séculos, o arcebispo de Cantuária permaneceu como primus inter pares, um primeiro entre iguais, sinal de unidade. Muitos como eu não estariam onde estão agora sem o que aconteceu por todo este tempo naquele lugar sob a liderança de inúmeros arcebispos.

Negar essa centralidade histórica é mais do que um equívoco, é uma espécie de amnésia espiritual. Há quem, por orgulho delirante, proclame: “Cantuária sou eu”. Mas ninguém que recebe uma herança tem séculos de fé para agir como se fosse o ponto de partida de alguma coisa. Não se impõe o báculo sustentado por tantos antes de nós como quem o encontrou ao acaso. A Igreja não começa em mim, ela me antecede, me forma e, por fim, passará adiante.

Sobre as fraturas, é bom dizer que isso não diz respeito apenas aos anglicanos: o “ministério da cerca” também é, de certo modo, uma herança comum. Assim como parte do mundo protestante reluta em reconhecer o peso histórico do bispo de Roma, ou como antigas tradições por vezes se fecham em si mesmas, esquecendo a riqueza do outro, todos nós (da Igreja Católica à Igreja Copta, passando pelas múltiplas expressões nascidas da Reforma Protestante) carregamos, em alguma medida, a tentação de negar o que não controlamos.

E, por vezes, muitos dos chamados “revolucionários” acabam revelando que a verdadeira mudança que buscavam era ter o poder, ser o centro. O ministério da cerca sempre apresenta bons argumentos, mas, muitas vezes, péssimas intenções e, infelizmente, tem se saído muito bem.

Escrevo, pois, como bispo fora dessa comunhão específica, mas não fora da história. E é justamente por isso que afirmo: há laços que não podem ser desfeitos sem que algo em nós também se rompa. Laços históricos, teológicos, eclesiásticos e, sobretudo, espirituais. Somos irmãos que pelas desventuras da história caminham separados, mas que não deixaram de compartilhar a mesma origem e a mesma fé.

Confessamos os mesmos credos, entoamos os mesmos salmos, elevamos as mesmas coletas. Somos formados por um mesmo livro de orações. Somos salvos pelo mesmo Senhor, sustentados pela graça do mesmo Deus. Caminhamos para o mesmo fim: celebrar, por toda a eternidade, como um só corpo.

Ninguém se faz sozinho. Nenhuma Igreja nasce de si mesma. A fé cristã tem passado e tem umbigo; e, para os anglicanos, em comunhão com Cantuária ou não, gostem ou não, neste corpo amplo e muitas vezes ferido do anglicanismo, esse umbigo é Cantuária.

Ó Deus todo-poderoso e eterno,
pela graça de nosso Senhor Jesus Cristo,
olha com misericórdia para todos os anglicanos e episcopais da terra;
guia-os na verdade, sustenta-os na unidade
e guarda-os todos em tua santa paz.

Concede, nós te suplicamos, que o Bom Pastor,
que ama as suas ovelhas e por elas deu a sua vida,
dirija, fortaleça e use com poder a tua serva Sarah Mullally,
para a edificação da tua Igreja e a glória do teu santo Nome;
por Jesus Cristo, nosso Senhor,
que vive e reina contigo e com o Espírito Santo,
um só Deus, agora e sempre. Amém.


+ Bispo Eric Rodrigues
Rede Episcopal Brasileira
5ª semana da Quaresma de 2026

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