A Igreja é santa por vocação, não por desempenho
Série Vocação Pastoral – Parte 2 (Parte 1 aqui)
Há momentos na vida da igreja em que paramos, olhamos ao redor e pensamos em silêncio: em que momento tudo isso se perdeu? Como a igreja foi parar aqui?
E, ao mesmo tempo, nunca tivemos tantas publicações teológicas sérias em língua brasileira. Nunca houve tanto acesso à boa formação, nem surgiram tantos pastores, teólogos e missionários que, mesmo tendo começado há pouco, já demonstram ser usados por Deus com clareza, fidelidade e fruto visível.
Essa convivência entre certa confusão e uma maravilhosa graça não é privilégio nosso, é o retrato da igreja em todos os tempos.
Já pensou, com seriedade, em todas as dificuldades enfrentadas pelo apóstolo Paulo?
Milagres e maravilhas caminhavam lado a lado com traições e abandonos. Conversões genuínas surgiam ao mesmo tempo em que perversões se infiltravam na própria igreja. Houve glória e houve tragédia; consolo e prisões; portas abertas e portas violentamente fechadas.
O próprio Paulo resume essa tensão quando escreve:
“Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos” (2Co 4.8–9).
Essa sempre foi a realidade da Igreja. Nunca houve uma igreja pura, estável e sem conflitos neste lado da ressurreição. Nossa performance sempre conflitou com nossa natureza. Desde Corinto até a Galácia, desde Antioquia até Roma, a Igreja sempre enfrentou instabilidades, desavenças, deserções e escândalos. Não começamos todos os cultos de joelhos pedindo perdão porque não temos nada para pôr no lugar, não somos capazes de pregar a palavra e servir os sacramentos sem arrependimento. Temos muito do que nos arrepender. E ainda assim, o Evangelho avançou, a igreja é Una Santa Católica e Apostólica, por meio do Espírito Santo que nos une a Cristo e ao Pai. Somos o santo corpo de Cristo Jesus.
Demas abandonou a fé, “tendo amado o presente século” (2Tm 4.10). A tradição antiga registra que ele terminou servindo a cultos pagãos. Alexandre, o latoeiro, causou grande dano ao apóstolo; Paulo é tão firme que diz “O Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras” (2Tm 4.14).
Há casos em que o próprio apóstolo afirma: “Não temos prazer nem em mencionar o nome” — não por amargura, mas por sobriedade espiritual.
Essa é a matéria-prima com a qual lidamos como pastores: uma humanidade instável, frágil, capaz de atos belíssimos e, ao mesmo tempo, de quedas terríveis. A igreja não é composta de heróis, mas de pecadores em processo de redenção.
A vida do Apóstolo Pedro é um retrato honesto das dificuldades e das glórias do discipulado. Ele foi o primeiro a confessar que Jesus era o Cristo e, pouco depois, ele mesmo tentou dissuadi-lo do caminho da cruz; recebeu o grande elogio e, em seguida, a repreensão mais dura. Caminhou sobre as águas por alguns instantes e afundou ao dar lugar ao medo; prometeu fidelidade até a morte e, na noite decisiva, negou o Senhor três vezes.
Ainda assim, foi restaurado à beira do lago, perdoado e enviado em missão apostólica. Pedro conheceu prisões, ameaças e açoites, mas também experimentou o poder do Espírito, viu milhares se converterem e foi feito por Deus uma coluna da Igreja. A história pessoal de Pedro é um retrato da igreja.
Quando nos tornamos pastores, imaginamos celebrações: casamentos, batismos, conversões, histórias de transformação. Perguntamo-nos se daremos conta de falar em público, se ficaremos nervosos diante do altar, se saberemos conduzir bem um culto. O que quase nunca passa por nossa cabeça é se daremos conta dos divórcios, das traições, das rupturas, das pessoas que simplesmente irão embora levando consigo aquilo que acreditávamos juntos, e às vezes jogando fora.
Nós nos preparamos para ganhar. Mas a menos que aprendamos a lidar com as perdas, jamais lidaremos com a igreja real.
Jesus perdeu discípulos (Jo 6.66). Paulo perdeu cooperadores. Pedro enfrentou hipocrisia dentro da liderança (Gl 2.11–14). A perda não é exceção; é parte do chamado.
Hoje, a Igreja continua sitiada: por dentro, pelo fundamentalismo endurecido e pelo progressismo liberal que dilui a fé; por fora, pelo humanismo secular que rejeita qualquer senhorio que não seja o do próprio eu.
Diante disso, é imprescindível permitir que a igreja ideal morra, para que dê lugar a uma esperança real, aquela que permanece apesar das falhas da igreja visível. Esperança que não se apoia na pureza da instituição, mas na fidelidade de Cristo.
Diante disso, podemos cair em duas covas rasas, duas tentações recorrentes.
A primeira é o triunfalismo, que idealiza a Igreja, recusa-se a ver suas feridas. Vê na igreja um clube de ursinhos carinhosos, que caem do penhasco recitando poesia. Mais cedo ou mais tarde se escandaliza quando a realidade não corresponde ao discurso. Tampa o sol com a peneira e morre de insolação.
A segunda é o cinismo, que vê as feridas e transforma isso em um mar de críticas, rancor e teologia feita com as tripas. Perde o amor, o fim é desprezo e desistência. Vê o problema e faz dele um Deus. Os cínicos de plantão estão sempre na esquina prontos a te contar mais uma mazela de alguma parte da igreja.
Nenhuma das duas posturas é cristã. A fé madura não ignora a fragilidade da Igreja nem abdica da esperança, porque sabe que ela não se sustenta em si mesma, mas em Cristo, que a corrige, a preserva e a conduz até o fim.
A Igreja não pode ser amada com ingenuidade nem abandonada com desprezo.
- A primeira coisa a lembrar é esta: a Igreja não é nossa; ela é de Cristo.
“Edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16.18).
Somos o povo Dele. Ele se importa mais do que nós. Sofremos com Ele as dores da Igreja e nos alegramos com Ele quando sua noiva manifesta sinais de vida, vigor e beleza. - A segunda coisa é aprender a caminhar um passo de cada vez, sem ansiedade.
Não há o que temer. Nem o passado com seus fracassos, nem o futuro com suas incertezas serão capazes de abalar o projeto do Rei Jesus que já está em curso.
“Aquele que começou boa obra em vós há de completá-la” (Fp 1.6). - E, por fim, precisamos de clareza espiritual: somos a Igreja que serve a Jesus; não o messias que serve a igreja.
Quando tiramos os olhos dEle, confundimos tudo e nos tornamos parte do problema que tentávamos resolver. “Ninguém pode colocar outro fundamento além do que já está posto, que é Jesus Cristo” (1Co 3.11).
Que Ele nos encontre firmes e fiéis, não dispersos. Que permaneçamos de pé mesmo se o mar ficar revolto. Que amemos a Igreja como Cristo a ama: não com ilusões, mas com fidelidade até o fim.
Ninguém detém, é obra santa.
☩ Bispo Eric Rodrigues
Quarta-feira de Cinzas de 2026 – Ano do Senhor
