Aos presbíteros, diáconos e ministros da Rede Episcopal Brasileira
Meus queridos irmãos e irmãs,
À medida que nos aproximamos do segundo turno das eleições presidenciais, quero pedir a todos nós, como ministros da Igreja de Cristo, uma atenção especial à maneira como atravessaremos estes dias. Não escrevo para dizer em quem votar, nem para interferir nas convicções políticas legítimas de cada um. Escrevo para lembrar aquilo que somos antes de sermos eleitores, aquilo que recebemos quando fomos chamados ao ministério e aquilo que continuaremos sendo quando as urnas já tiverem encerrado seu trabalho.
Somos pastores. E somos pastores de todo o rebanho.
Nossa responsabilidade não termina naqueles que concordam conosco. Talvez seja justamente diante daqueles que pensam de maneira diferente que nosso ministério se torne mais necessário. Na Igreja haverá pessoas que votarão como nós e pessoas que votarão de outra maneira. Haverá pessoas que enxergarão determinado candidato como esperança e outras que o verão de forma completamente diferente. Haverá irmãos que chegarão a conclusões políticas distintas a partir de suas próprias consciências e experiências. Isso faz parte da vida humana e da liberdade que Deus nos deu.
Mas existe algo que está acima de tudo isso.
Podemos ter partidos diferentes, mas temos um só Senhor. Podemos ter opiniões políticas diferentes, mas recebemos um só Batismo. Podemos votar de maneiras diferentes e continuar nos alimentando da mesma mesa. O que é relativo não pode ocupar o lugar daquilo que é absoluto. Pertencemos a Cristo e somos um só Corpo.
Nossa lealdade última, portanto, não pode ser confundida com a lealdade a um partido, a um candidato ou a um projeto de poder. A Igreja precisa permanecer livre para anunciar Cristo a todos, inclusive àqueles que pensam politicamente de maneira diferente de nós.
O pastor pode ter suas convicções como cidadão. Pode votar, acompanhar a vida pública e refletir sobre os problemas do país. Pode inclusive falar sobre política. A pergunta não é simplesmente se o pastor pode falar sobre política. A pergunta é: de que lugar ele fala?
Estou falando como cidadão ou como pastor? Estou expressando uma convicção pessoal ou utilizando a autoridade do ministério que recebi? Estou ajudando a Igreja a discernir ou estou fazendo da Igreja uma extensão de uma disputa política?
Precisamos fazer essas perguntas porque recebemos uma responsabilidade maior do que qualquer eleição.
A tradição anglicana nos lembra que a reconciliação está no coração do Evangelho. São Paulo nos diz que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo e que, por isso, recebemos o ministério da reconciliação. Não somos apenas pessoas que pregam sobre reconciliação. Somos ministros de uma reconciliação que Deus realizou em Cristo e que agora somos chamados a testemunhar no mundo.
Nossa vocação não é vencer a guerra política. É testemunhar, em meio a um mundo dividido, que em Cristo ainda é possível sentar-se à mesma mesa.
O ministério da reconciliação deve ser exercido com gentileza, paciência e sustentado pela confiança mútua. O pastor precisa ser alguém junto de quem pessoas diferentes ainda possam permanecer juntas. Quando a sociedade transforma a diferença em hostilidade, a Igreja precisa lembrar que uma diferença não precisa terminar em inimizade.
Isso não significa que a Igreja deva ser indiferente diante da injustiça. Não significa silenciar diante da mentira, da violência, da corrupção ou do sofrimento dos pobres. A reconciliação cristã não é uma neutralidade confortável diante do mal. Somos chamados a buscar a justiça, defender a dignidade humana e cuidar dos vulneráveis. Mas precisamos fazer isso sem perder aquilo que somos. Podemos discordar sem desumanizar. Podemos denunciar aquilo que consideramos errado sem transformar o outro em inimigo.
Talvez seja justamente na Eucaristia que compreendamos isso com maior clareza.
Todos os domingos, pessoas que talvez nunca escolhessem umas às outras como companheiras de mesa são reunidas por Cristo à mesma mesa. Pessoas que pensam diferente, que possuem histórias diferentes e que chegam a conclusões diferentes são colocadas diante do mesmo altar.
O altar relativiza aquilo que o mundo absolutiza. O pastor não pode transformar em inimigo aquele com quem terá de repartir o mesmo pão. A Eucaristia não elimina nossas diferenças. Ela nos ensina que nossas diferenças não são maiores do que aquilo que nos une em Cristo.
Por isso, peço aos nossos clérigos especial prudência neste período.
Não precisamos responder a toda provocação. Nem toda opinião precisa ser corrigida publicamente. Nem toda discussão precisa ser levada adiante. Há momentos em que o silêncio é prudência, e há momentos em que preservar a comunhão é uma forma de testemunhar o Evangelho.
Precisamos também ter cuidado com nossas redes sociais. Uma palavra escrita rapidamente pode ferir alguém que encontraremos no domingo. Uma discussão aparentemente pequena pode atravessar uma família, uma comunidade e uma igreja. O pastor precisa lembrar que sua presença pública não termina quando fecha a porta do templo. As pessoas continuam olhando para nós e reconhecendo em nós alguém que recebeu o cuidado de uma comunidade inteira.
Não podemos incendiar durante a semana a casa na qual teremos de celebrar a Eucaristia no domingo.
Mantenham a guarda alta, irmãos e irmãs. Não para atacar, mas para guardar o coração. Guardem a língua, guardem o púlpito e guardem nossas comunidades. Nem toda provocação merece resposta. Nem toda batalha precisa ser travada.
Depois que as urnas forem fechadas, continuaremos sendo Igreja.
Continuaremos batizando, celebrando a Eucaristia, visitando os enfermos, enterrando nossos mortos, recebendo aqueles que chegam e anunciando o Evangelho. E continuaremos sentados à mesma mesa com pessoas que talvez tenham votado de maneira diferente da nossa.
O resultado das urnas passará. Os governos passarão. Os partidos passarão. Os ciclos políticos passarão. Cristo permanecerá.
Por isso, neste tempo, peço a cada ministro da REB que se lembre da dignidade e da responsabilidade de seu chamado.
O mundo já possui partidos suficientes. A Igreja precisa oferecer aquilo que os partidos não podem oferecer: reconciliação.
O mundo já possui lugares suficientes onde as pessoas aprendem a escolher seus inimigos. A Igreja precisa continuar sendo um lugar onde aprendemos a permanecer juntos.
Temos um altar comum. E diante desse altar, no domingo, não haverá vencedores e vencidos. Haverá pecadores recebendo graça. Haverá irmãos e irmãs recebendo o mesmo pão. Haverá um só Corpo, uma só fé, um só Batismo e um só Senhor.
Que Deus nos conceda sabedoria para atravessar estes dias com serenidade, firmeza e caridade. Que nos dê coragem para falar quando for necessário e prudência para permanecer em silêncio quando nossas palavras poderiam ferir mais do que edificar. E que, quando tudo isso passar, possamos continuar olhando uns para os outros e reconhecendo aquilo que nenhuma eleição pode mudar: somos irmãos, pertencemos a Cristo e nos encontraremos novamente diante da mesma mesa de nosso Senhor.
Em Cristo,
+ Eric Rodrigues
Bispo da Rede Episcopal Brasileira
