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O Amor Redentivo como Vocação Pastoral

Série Vocação Pastoral   Parte 1

Há uma tentação que ronda o ministério pastoral: imaginar que somos consertadores de gente. Isso é uma corrupção do “imaginário regulador” da tarefa pastoral. Como se a igreja fosse uma oficina, e as pessoas chegassem até nós como carros velhos, quebrados, precisando de ajustes, peças novas e desempenho melhor. Como se nosso chamado fosse transformar vidas “defeituosas” em máquinas vencedoras, eficientes, prontas para voltar a competir e ganhar. Não cuidamos de coisas a serem melhoradas, cuidamos de pessoas.

É verdade que muitos chegam até nós cansados e sobrecarregados. Feridos pela vida, esmagados por expectativas frustradas, marcados por fracassos, pecados e perdas. Mas é precisamente aqui que precisamos lembrar: não somos mecânicos da alma, nem treinadores de equipes campeãs. Não fomos chamados para ajustar pessoas, otimizar desempenhos ou “fazer o culto funcionar” como um produto bem-sucedido, oferecemos Cristo e seu perfeito amor, e nada mais.

E a forma com que cuidamos das pessoas difere de todas as outras, não somos a fonte de esperança para ninguém, apenas sabemos quem é. Nossa tarefa não é tornar a igreja “relevante” aos olhos do novo mercado religioso, nem transformar fracassados em vencedores que “liderarão o mundo e comerão do melhor desta terra”. Isso pode soar espiritual, mas não é o coração do Evangelho. sob nossa ótica, ladrões em cruzes podem estar em melhor situação que reis em palácios. Quando reduzimos o ministério a resultados, performance e crescimento visível, trocamos o pastoreio pelo gerenciamento, e em pouco tempo o amor é substituído pelo controle.

Muitas vezes nos vemos incapazes diante das dores e das lutas pessoais de nossas ovelhas. Nesses momentos, o que nos resta é orar, confiar em Deus, que as ama infinitamente mais do que nós, e esperar. As vezes regamos e adubamos nossas plantinhas e elas parecem não sair do lugar.

Elas não são objetos quebrados. Não podem ser descartadas, nem coladas com teorias bem-intencionadas ou soluções rápidas. O que precisam não é de técnica, mas de bálsamo divino. Precisam daquilo que só Deus sabe fazer, no tempo e do modo d’Ele.

Essa consciência nos livra da tentação do coaching espiritual, do curandeirismo religioso e da manipulação do peso do ministério para tentar fazer aquilo que não sabemos e não podemos  fazer.

Ao pregarmos, não estamos manuseando ferramentas de ajuste para corrigir o que não está funcionando na vida das pessoas. Anunciamos que eles já são amados por um deus bondoso, e que o maior concerto possível para nossas almas é estar em Cristo Jesus. Pregamos porque amamos. Servimos porque fomos amados primeiro. Nosso chamado primordial não é treinar, ajustar ou consertar, mas amar.

Amar pessoas.
Servi-las com amor.
Caminhar com elas com paciência.
Mesmo quando não merecem.
Especialmente quando não merecem.

Porque é exatamente isso que Cristo faz conosco.

Ele não nos recebeu como projetos inacabados que precisavam provar seu valor. Ele nos recebeu como filhos cansados, e nos amou antes de qualquer mudança. E, nesse amor, nos restaurou. Não pela pressão do desempenho, mas pela força da graça.

Ao fim da jornada, nossa tarefa não será entregar a Deus uma igreja grande, cheia e rica. A maioria dos pastores reais jamais fará isso. Muitos de nós passaremos longe de números impressionantes, templos lotados ou reconhecimento de um grande público. Em certos momentos, parecerá que nosso trabalho não deu muito resultado.

Mas lembremo-nos: quando Jesus ascendeu aos céus, Ele também não havia deixado “nada pronto” segundo os critérios humanos. Um pequeno grupo, frágil, confuso, sem poder político ou estrutura institucional. E ainda assim, Ele pôde dizer: “Está consumado.”

Porque o Reino não se mede com a régua do desempenho, mas pelo amor misericordioso e pela fidelidade.

Nossa vocação é permanecer fiéis até o fim.
Pregar com alegria.
Servir com amor.
Cuidar das ovelhas, não como projetos, mas como pessoas.
Confiar que o Espírito Santo faz o que nós jamais poderíamos fazer.

E os frutos?
Eles virão.
No tempo certo.
De formas inesperadas.
Tão espantosos que só poderemos atribuí-los a Deus.

Já desisti de cuidar de algumas plantas aqui em casa, coloquei em uma janela e deixei lá. tempo depois sem eu desferir nada do que sabia sobre ele, novos brotos, folhas novas e um vigor surpreendente surgiu, cuidar de plantas traz muitas surpresas, mas de pessoas muito mais. E naquele dia, quando tudo for revelado, não louvaremos o tamanho da obra, nem a eficiência do ministério, mas o santo nome do Senhor, que nos chamou a amar, e nos sustentou até o fim.

 ☩ Bispo Eric Rodrigues
19 de janeiro de 2026 – Epifania – Ano do Senhor

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