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Fique: isso é para sempre.

Quero compartilhar com vocês, clérigos e leigos, uma coisa que considero muito importante para a nossa espiritualidade e, especialmente, para aqueles e aquelas que discernem o chamado às Sagradas Ordens: diáconos, presbíteros e bispos. Mas ela serve para todos nós, crentes em Cristo Jesus.

O chamado pastoral dentro do diaconato e do presbiterato não é um chamado para uma época da vida. É um chamado para a vida inteira. Não é para uma semana, um mês ou alguns anos. É uma vocação que, uma vez recebida, passa a fazer parte de quem somos até o último dia de nossas vidas. Uma das coisas mais tristes que podemos testemunhar em nossos dias é a existência de “ex-pastores”, como se fosse possível simplesmente deixar de ser aquilo para o qual alguém foi ordenado. Às vezes, parece que alguém recebeu de Deus uma vocação, guardou-a numa bolsa e depois a colocou no armário.

Digo isso com carinho, porque às vezes compreendemos o ministério pela mesma lógica com que o mundo compreende o trabalho: uma função que exercemos enquanto faz sentido para nós. Mas a ordenação é muito mais profunda. Na tradição anglicana, quando uma pessoa é ordenada pela imposição das mãos do bispo e pela oração da Igreja, não recebe simplesmente uma função ou um cargo. Algo acontece. A Igreja reconhece uma vocação e separa aquela pessoa para o serviço de Deus e do seu povo. A ordenação passa a marcar profundamente a própria vida. Não é apenas o que fazemos; agora é quem nós somos. A ordenação confere caráter: é um tipo de relação com Deus, um tipo de participação em sua vida. Isso não se perde nem volta atrás. Por isso, os processos de discernimento e preparação para a ordenação levam tempo, para que a decisão seja madura.

É aqui que quero recuperar uma palavra muito antiga da espiritualidade monástica: estabilidade.

Na tradição beneditina, o monge faz o voto de permanecer. Os monges perceberam que saltar constantemente de mosteiro em mosteiro, procurando outro lugar, outra comunidade ou uma vida mais fácil, muitas vezes não produzia crescimento espiritual. A pessoa levava consigo as mesmas dificuldades, as mesmas tentações e as mesmas inquietações. Por isso, a estabilidade tornou-se uma promessa concreta de permanecer naquele lugar e naquela comunidade até a morte.

Isso nos ensina algo muito importante. Estabilidade significa ficar. Significa permanecer. Significa criar raízes. Não podemos transformar essa palavra numa metáfora tão ampla que ela deixe de significar aquilo que sempre significou. No contexto da vocação pastoral, ser fiel é permanecer. A fidelidade se torna visível no fato de continuarmos presentes. Pular de paróquia em paróquia, de diocese em diocese, de província em província não produz bons frutos. Crie estabilidade.

Naturalmente, existem circunstâncias extraordinárias (e disso conheço bem) nas quais uma pessoa pode precisar receber outra missão ou mudar de lugar. Mas isso não deve esvaziar o sentido da estabilidade. Uma vocação para a vida inteira não pode ser tratada como algo provisório, que carregamos enquanto nos serve e abandonamos quando deixa de nos servir.

O pastor precisa de tempo para conhecer seu povo. Precisa aprender os nomes, ouvir as histórias, acompanhar os casamentos, os nascimentos, as perdas e os recomeços. Precisa celebrar a Eucaristia muitas vezes com as mesmas pessoas, ouvir suas confissões, orar por elas, ensinar seus filhos e sepultar seus mortos. É nesse cotidiano, muitas vezes silencioso, que uma comunidade começa a se tornar família. E é também nesse cotidiano que o pastor vai sendo formado.

Por isso, meus irmãos e minhas irmãs, não tenham pressa de ir embora. Nem toda aridez é um sinal para partir. Nem todo conflito significa que estamos no lugar errado. Há coisas que Deus só pode fazer em nós quando permanecemos tempo suficiente diante delas. Ninguém cria raízes correndo. E ninguém se torna pastor de um povo apenas passando por ele.

Precisamos recuperar a beleza de promessas simples que parecem esquecidas. É preciso que um pai e uma mãe possam dizer aos seus filhos: “Conte comigo. Não apenas agora, mas para sempre.” É preciso que um marido possa olhar para sua esposa e dizer: “Eu vou permanecer ao seu lado; você pode contar com isso.” É preciso que amigos possam dizer uns aos outros: “Apesar de tudo, apesar dos dias difíceis, apesar das mudanças, eu não vou simplesmente desaparecer. Eu vou permanecer.” Talvez uma das maiores provas de amor seja justamente essa: saber que alguém ficará e que, quando a vida se tornar difícil, quando as coisas perderem o brilho e quando já não houver nenhuma vantagem em permanecer, ainda haverá alguém capaz de dizer: “Conte comigo. Eu estou aqui. Eu vou ficar.” Maridos, fiquem; esposas, fiquem; amigos, fiquem; ovelhas, fiquem; pastores, deem o exemplo: sejam os primeiros.

Quero que nossa Igreja seja uma Igreja de pessoas profundamente enraizadas. Isso é especialmente importante para nós, que desejamos ser uma Igreja contemporânea e sacramental em um tempo de tantas mudanças. Ser contemporâneo não significa ser levado pela velocidade do tempo. Talvez uma das coisas mais necessárias que podemos oferecer ao nosso tempo seja justamente a capacidade de permanecer.

Nós permanecemos diante da mesa da Eucaristia porque sabemos que algumas coisas precisam ser repetidas para formar a alma. Voltamos aos mesmos Salmos, às mesmas orações, ao mesmo Evangelho, ao mesmo pão e ao mesmo vinho, não porque nada esteja acontecendo, mas porque Deus trabalha profundamente por meio daquilo que aprendemos a habitar.

É por isso que, como bispo, desejo ensinar nossa Igreja a amar a estabilidade. Não como uma prisão, mas como uma forma concreta de amor. Permanecer é também dizer: “Eu não vou embora simplesmente porque ficou difícil. Eu não vou abandonar aquilo que Deus me confiou apenas porque encontrei outro lugar que parece mais interessante. Eu vou ficar.”

Por isso, algumas coisas, quando são verdadeiramente recebidas de Deus, não são para uma estação da vida. São para sempre.

Oremos:

Senhor Deus, eterno e imutável, cujo amor não passa e cuja fidelidade permanece para sempre, concede-nos a graça de permanecer em ti, assim como os céus, a terra, o mar e as montanhas permanecem diante de ti, sustentados pela tua Palavra. Quando vier o cansaço, sustenta-nos; quando vier a aridez, conserva-nos firmes; e quando as dificuldades nos fizerem desejar partir, dá-nos coragem para permanecer onde nos plantaste. Guarda aqueles e aquelas que receberam as Sagradas Ordens, para que vivam sua vocação como entrega de toda a vida, e faze de tua Igreja uma comunidade de raízes profundas, fiel à tradição, aberta ao teu Espírito e perseverante no serviço, por Jesus Cristo, nosso Senhor. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.

+ Eric Rodrigues
Bispo Diocesano da Rede Episcopal Brasileira
9 de setembro de 2026 – Tempo Comum

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